Sem patrocínio, a iniciativa conta com doações, parcerias e trabalho voluntário

Camilla Orlando, um dos principais nomes do futebol profissional candango, largou os campos com um objetivo: lutar pelo desenvolvimento da modalidade feminina no Brasil. O primeiro passo foi dado em 2012, com a criação da escolinha Capital Feminina, cuja missão é tornar a prática mais acessível a mulheres. Mas não foi suficiente. Em 2014, Camilla foi selecionada para participar do programa Sports for Community, nos Estados Unidos, parte da Rede Esporte pela Mudança Social (REMS). A ex-jogadora voltou ao Brasil, no início do ano — após seis semanas de curso —, inspirada e cheia de ideias para ajudar o público feminino por meio do esporte. Assim, nasceram, há dois meses, três projetos sociais que ensinam inglês e futebol a meninas pobres: um no Itapoã, um na Fercal e outro na Estrutural.
Apesar de terem começado há pouco tempo, os projetos reúnem cerca de 70 garotas com idade a partir de 10 anos. O maior deles é o da Estrutural, que conta com 35 meninas. Muitas delas não tinham tênis para bater bola e, por isso, foi feita uma arrecadação de doações de chuteiras.

A adolescente Rozângela Marques, 15 anos, mora em um abrigo para menores abandonados e participa da escolinha no Itapoã. Para ela, os treinos são a esperança de construir o futuro que deseja: “Quero ser jogadora profissional de futebol. É muito bom poder jogar com meninas da minha idade e ainda aprender inglês”. O programa também pretende gerar intercâmbios de idioma, para que as alunas tenham a chance de estudar nos Estados Unidos com ajuda de bolsas esportivas.

Todas as pessoas que trabalham no programa social da equipe Capital Feminina são voluntárias. A estudante de educação física Tuanna Innocencio, 24, foi convidada por Camilla Orlando a treinar as meninas da Fercal e abraçou a ideia: “Sempre tive vontade de participar de um projeto social. Quando recebi o convite, não hesitei. Além de ajudar pessoas, ganho experiência profissional”. Antes de estudar educação física, a voluntária aprendeu inglês na faculdade e, assim, pode ajudar as participantes com o idioma estrangeiro também.

Carlos Vieira/CB/D.A Press

Escola Americana
Por enquanto, apenas as meninas do Itapoã recebem aulas formais de inglês, por meio de parceria com a Escola Americana de Brasília (EAB). Nas segundas-feiras, as garotas praticam futebol e nas quartas-feiras vão à EAB em uma van que as busca no local de treino. O único pré-requisito para jogar no Itapoã é que as participantes frequentem a EAB. Elas não podem apenas treinar ou apenas estudar, têm de fazer os dois. “O objetivo do projeto não é formar atletas, é dar oportunidades, incentivar a prática de esportes, construir valores e ajudar meninas carentes”, destaca a criadora do programa.

Camilla espera, no futuro, poder contratar profissionais que trabalhem formalmente. Por enquanto, depende do trabalho voluntário. “Não temos patrocínio e nos deparamos com muitos obstáculos financeiros. Tento oferecer cursos e materiais que auxiliem o trabalho dos voluntários, para que eles também possam tirar proveito da experiência”, pontua.

A equipe Capital Feminina tem planos de abrir uma turma em Santa Maria, mas, para isso, ainda depende de recursos humanos e financeiros. Apesar dos obstáculos, a fundadora está otimista. “É muito gratificante ver como tudo tem dado certo. Para fazer a diferença, basta tomar uma atitude e colocar a mão na massa”, assegura. Segundo a ex-jogadora, hoje em dia não há mais tanto preconceito contra mulheres no futebol. Faltam apoio e incentivo.

Carreira
Camilla jogou de 2005 a 2007 pela Lincoln Memorial University, nos Estados Unidos, e disputou as Copas do Brasil de 2009 a 2011 e a de 2013 pelo Cresspom. Recebeu convite para atuar no Atlético-MG, mas preferiu ficar em Brasília. Também trabalhou no Comitê Organizador Local da Copa do Mundo. Atualmente, é chefe do Departamento de Futebol Feminino da Federação Brasiliense de Futebol. Neste mês, será palestrante do Seminário de Desenvolvimento do Futebol Feminino da CBF.